Entre a espada, os livros e a poesia
Enquanto muitos homens passam a vida inteira tentando escolher apenas um caminho, José Geraldo decidiu honrar todos os que habitavam dentro dele. O menino alentejano apaixonado pelos versos do avô. O militar moldado pela disciplina e pelo serviço. O investigador fascinado pela História de Portugal. O poeta que transformou memórias em palavras. E o humanista que, mesmo depois de décadas de carreira militar, continua movido pela missão de ajudar pessoas.
Aos 64 anos, José Custódio Madaleno Geraldo carrega uma trajetória rara: conseguiu unir firmeza e sensibilidade sem perder a essência de nenhuma delas. Coronel do Exército Português, escritor, investigador, conferencista e atual Diretor Nacional da Diplomacia Civil Jethro em Portugal, ele construiu uma vida onde a autoridade nunca apagou a humanidade.
Nascido no Torrão do Alentejo, no concelho de Alcácer do Sal, cresceu cercado por afeto, cultura popular e simplicidade. A infância foi profundamente marcada pelos pais, Arsénia e Lauduino, a quem mais tarde dedicaria poemas carregados de emoção e gratidão. Mas foi o avô materno, Guilherme José Madaleno, quem despertou nele uma paixão que atravessaria toda a sua vida: a poesia.



Ainda menino, José ouvia o avô cantar modas alentejanas enquanto cuidava dos animais no campo. A família silenciava-se apenas para ouvir aquela voz ecoar pela casa. As canções, os versos populares e os poemas recitados à lareira tornaram-se parte da sua formação emocional e intelectual.
“Foi neste ambiente poético que cresci e me apaixonei pela poesia”, recorda.
O gosto pela leitura surgiu cedo. As visitas mensais à Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian ajudaram a ampliar horizontes e alimentar uma curiosidade que nunca mais o abandonaria. Mais tarde, os livros deixariam de ser apenas companhia para se tornarem também legado.
Mas antes da literatura, surgiu a vocação pelo serviço.
Sem tradição militar na família, decidiu candidatar-se à Academia Militar após concluir os estudos em Almada. A escolha nasceu mais da intuição do que de um plano traçado.
“Não faças grandes projetos para a vida, para não estragares os projetos que a vida tem para ti”, diz, citando Agostinho da Silva.
Entrar para a Academia Militar significou enfrentar desafios físicos, psicológicos e emocionais intensos. Mais do que formar oficiais, a instituição preparava líderes capazes de suportar pressão, responsabilidade e sacrifício.
“Não basta ter vocação. É preciso desenvolver disciplina, espírito de camaradagem e capacidade de liderança”, explica.
Escolheu a Arma de Infantaria e iniciou uma carreira construída ao longo de décadas dentro do Exército Português. Serviu em diversas unidades militares e desempenhou funções estratégicas importantes, mas foi no comando de tropas que encontrou uma das experiências mais marcantes da sua vida.
“As pessoas são o que há de mais importante em todas as organizações”, afirma.
Ao longo da carreira, passou pela Escola Prática de Infantaria, Instituto Geográfico do Exército, Instituto de Defesa Nacional e Direção de História e Cultura Militar. Entre 2007 e 2016, assumiu a direção do Jornal do Exército, período que considera um dos mais relevantes do seu percurso.
“Queríamos aproximar os portugueses do seu Exército e mostrar o papel das Forças Armadas dentro e fora do país”, conta.
Paralelamente à vida militar, aprofundou a sua ligação à História Militar e às Relações Internacionais. Tornou-se mestre na área e publicou obras que hoje são referências importantes, entre elas As Invasões Napoleónicas – Desde a Ida da Família Real para o Brasil às Linhas de Torres: 1807-1811, utilizada como uma das bases para o filme As Linhas de Wellington.
Também publicou livros de poesia, estudos históricos e obras sobre pensamento estratégico português, unindo investigação acadêmica à sensibilidade literária que o acompanha desde a infância.


“A poesia sempre andou de braço dado comigo”, diz.
Além dos livros, tornou-se autor e apresentador do programa televisivo Um Copo e Dois Dedos de Poesia, conferencista e colaborador de diversas revistas culturais e militares. É membro de importantes associações científicas e culturais portuguesas, incluindo a Associação Portuguesa de Poetas e a Liga dos Combatentes.Mas a sua história ainda ganharia um novo capítulo.
Em 2023, através de um encontro ligado ao universo literário, conheceu Renato Freire e recebeu o convite para integrar a Jethro International. Pouco tempo depois, assumiu a função de Diretor Nacional da Diplomacia Civil Jethro em Portugal.
Hoje, coordena ações humanitárias, projetos sociais e iniciativas ligadas à diplomacia civil, promovendo cooperação e impacto social em diferentes áreas.
“Na vida, há três coisas que quase todos fazemos: estudar, trabalhar e ajudar”, reflete.
Entre as ações recentes lideradas pela organização esteve a mobilização humanitária para apoiar vítimas da tempestade Kristin, em Portugal, arrecadando milhares de telhas, roupas e alimentos para famílias afetadas.


Mesmo reformado do Exército, José Geraldo mantém uma rotina intensa. Divide-se entre a Jethro International, a direção executiva da Revista Combatente, palestras, eventos culturais e a escrita de novos livros. Quando fala sobre legado, a resposta vai além de patentes, títulos ou reconhecimento.
“O meu objetivo é continuar a trabalhar para ajudar os outros”, afirma.
Talvez seja exatamente isso que torne a sua trajetória tão singular. José Geraldo conseguiu provar que firmeza não exclui sensibilidade. Que disciplina pode caminhar ao lado da arte. E que algumas pessoas não passam apenas pela História, ajudam a preservá-la, escrevê-la e inspirá-la para as próximas gerações.
E-mail: geraldo.jcm@gmail.com
+351 914 114 090
Por: Myllena Sergel

